A fala do Secretário de Cultura ao ouvir a negativa do Movimento Cultural Ermelino Matarazzo em uma proposta onde a prefeitura não daria um centavo, mas receberia relatórios e prestações de conta são apenas a ponta do problema. A gestão Doria que antes de entender os problemas da cidade, faz marketing e, com isso, acaba por realizar desastres como os da Cracolândia, mas não só.

O áudio publicizado pelo site “Periferia em Movimento” é longo e tem cerca de 35 minutos. ImprenÇa o ouviu por inteiro. A frase, que com contexto ou sem contexto segue sendo autoritária, para falar o mínimo, foi proferida por André Sturm após receber um “não” de uma proposta que havia feito.

O contexto

O Movimento de Cultura Ermelino Matarazzo ocupou um espaço público que estava abandonado, ainda na gestão Haddad. Com a ocupação, criou-se ali um espaço de cultura de relevância para a região e os trabalhos vêm sendo tratados de forma autônoma, sem nenhum tipo de auxílio da Prefeitura.

O grupo então, sabedor de sua legitimidade para atuar na região, foi até o Secretário André Sturm para viabilizar algum tipo de apoio financeiro para o local. Ou seja, a prefeitura não teve que limpar o espaço, não teve que contratar nenhum profissional, não teve que entender o que o território precisa. Estava tudo pronto, bastando, portanto, algum aporte financeiro {{imagine você que se funciona como local de cultura sem nenhuma verba, não estamos falando da necessidade de se repassar milhões}}. Foi para isso que se chamou a reunião.

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No áudio, que você pode ouvir acima {{o furo de reportagem, é bom dar o crédito, é do Periferia em Movimento}}, André Sturm começa a reunião informando a parceria proposta por ele. A proposta é basicamente: a prefeitura regulariza o espaço enquanto casa de cultura, pagando água e luz. O movimento cultural teria que fazer prestação de contas a cada dois meses, restrições de atividades “não-culturais” e teria a permissividade de que se possa cobrar por 40% das atividades no local.

Aos 12 minutos André afirma: “óbvio, vocês estão num bairro periférico, vocês estão num bairro de poder aquisitivo pequeno… O Estado tem de apoiar vocês, nós vamos apoiar“.

“Você pode ter a opinião que você quiser, o espaço é público. É do governo. Se você não formalizar nós vamos tirar vocês de lá. Veja bem, se vocês não assinarem nós vamos tirar vocês de lá” diz o secretário

A reunião é interrompida por André, que sai da sala depois de um telefonema. Ele volta um pouco nervoso {{aos 24 minutos}}, dizendo “Desculpa, {{estava}} tentando conseguir dinheiro para essa secretaria”. E aí o movimento retoma a discussão. “Essa proposta não dialoga muito com grande parte das ocupações, que não estão em espaços da secretaria de cultura. Falando especificamente no nosso caso, não vemos a necessidade de formalizar uma parceria com o poder público e não ter nenhum retorno financeiro. Vamos seguir fazendo nossas atividades da mesma forma, autônoma {{}} para gente não faz sentido esse modelo de parceria sem nenhum retorno financeiro”.

André então retoma dizendo “Se vocês acham que não precisam disso não tem problema nenhum. Eu só acho que… é… o que eu vou dizer não quer dizer que eu não reconheça a legitimidade de vocês, eu reconheço, mas legitimidade e nada é a mesma coisa. Se o subprefeito quiser chegar lá e fechar a porta, ele fecha.” O movimento responde: “o espaço não é da prefeitura regional, a gente está numa casa de cultura aí a decisão teria que vir da secretaria de cultura”.

André passa a ser mais direto: “se eu quiser fechar a porta, também posso”. Então ele tenta contemporizar “eu achei que ajudava, mas se vocês não querem formalizar, tudo bem. Nós vamos analisar a proposta financeira que vocês fizeram e vamos ver as possibilidades, mas nós não vamos fazer nenhum repasse sem estar formalizado“.

“Você pode ter a opinião que você quiser, o espaço é público. É do governo. Se você não formalizar nós vamos tirar vocês de lá. Veja bem, se vocês não assinarem nós vamos tirar vocês de lá” diz o secretário. E em seguida ele afirma, o áudio não deixa claro a quem, “providência com a prefeitura regional o fechamento do espaço, boa sorte para vocês. Vocês não querem, querem ficar com esse discursinho babaca. Você é um chato rapaz, se continuar falando eu vou quebrar sua cara“.

A gestão

A frase é apenas a caricatura de uma gestão que age com o mesmo autoritarismo.

Os profissionais de assistência social e da área da saúde não foram avisados das ações policiais na região da cracolândia, no escândalo – até este – mais recente. Por não conversarem com quem atua na região, não sabiam das entradas clandestinas do prédio que estavam demolindo. E acabaram por demolir um prédio com gente dentro.

O mesmo tipo de ação sem estudo anterior foi aplicado ao subir as velocidades das marginais, gerando aumento nas mortes decorrentes de acidentes. A tinta cinza sobre os grafites, sem nenhum tipo de comunicação com a comunidade, outro exemplo.

E estamos apenas na metade do primeiro ano de mandato. A gestão peca pela pressa desmedida, age de forma autoritária e desconhece completamente os territórios onde pretende atuar.

Vai mal a cidade de São Paulo, a tendência é piorar.