O MEC, o “português errado” e a linguistica…

Pois eis que o MEC aprova um livro que ensina a falar o português errado. Eis que a imprenÇa descobre e resolve fazer um auê por conta disso e ignora… o que está escrito no livro… Melhor seria uma análise de quem sabe do que está falando, certo?

Não estou dizendo que eu sou essa pessoa, apenas fiz algo que a maior parte dos seres que habitam os confins das redações publicitárias jornalísticas não fizeram: eu li o que estava no tal livro.


E o que parece trazer polêmica é a tal norma culta. A norma culta, cambada, é a gramática que as escolas enfiam goela abaixo das crianças dizendo que é assim e ponto. Não vou entrar em pormenores linguísticos aqui mas essa norma contém diversos erros conceituais. Erros que não se sustentam quando você começa a estudar profundamente a língua…

Mas não é isso que está em discussão. A discussão na verdade é outra: o vestibular exige a norma culta, porque raios ensinar outras?


{{Crédito da foto: Jean Wichinoski Fotografia – não acredite em mim}}

Que não se engane a leitora tampouco o leitor. Eu escuto a discussão desde meados de 2005. Para a linguística  a única forma errada do português é a frase de número 3:
  • 1. Os menino são feio
  • 2. Os meninos são feios
  • 3. Feio meninos os são

Antes de entrar no mérito da questão é preciso uma pequena lembrança: o português serve para que possamos nos comunicar, não para que passemos no vestibular. É, é óbvio, mas não custa fazer a lembrança…

Com toda certeza qualquer leitor da língua portuguesa falada no Brasil {{note que é uma parte específica da língua}} entende as frases 1 e 2 sob o mesmo sentido. Com a mesma certeza é possível afirmar que a frase número 3 só seria entendida caso o leitor mudasse, ainda que mentalmente, a ordem das palavras.

É por este motivo que afirma-se na linguística que a frase errada é a 3 e não as outras duas.

Você pode, como a Dora Kramer, aproveitar o momento para, de novo, falar mal do Lula, ignorando o fato do português dele não ter prejudicado em nada seu mandato {{e aqui não é elogio ou crítica, é constatação… você pode achar os mandatos dele um lixo, mas não por conta do português…}}, diz a espertona:

Tal deformação tem origem na plena aceitação do uso impróprio do idioma por parte do ex-presidente Lula, cujos erros de português se tornaram inimputáveis, por supostamente simbolizarem a mobilidade social brasileira.{{não acredite em mim}} 

Deixa eu contar um segredo para vocês que não gostam do Lula {{mas não espalha, tá?}}: Ele não tem essa importância toda… A discussão, como já disse e repeti é acadêmica, linguística.

Não, não me esqueci do mundo real.

O mundo real diz que as crianças precisam passar no vestibular. O mundo real diz que as crianças precisam escrever corretamente. Mas diz o mundo real que as crianças são burras? Acho que não…

O livro ressalta a norma culta, incentiva o seu emprego e uso. Destaco:


“Você pode estar se perguntando: `Mas eu posso falar ‘os livro’?. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico. Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas” {{não acredite em mim}}



Achar que a criança não saberá diferenciar {{ainda que confunda, vez em quando, parte normal do aprendizado}} o português falado do português escrito é como querer proibir o uso do MSN por elas…

Ou seja: o livro diz e reforça a importância de saber a norma culta mas ressalta aquilo que os acadêmicos dizem. Portanto o livro não ensina o português errado, mas admite a existência de um português falado no país.

A criança, burra que não é, saberá entender a diferença e estudará para a prova a gramática normativa conforme o professor assim exigir. O livro é um meio mas não é a aula, não custa lembrar.

Atualização: Alguém é capaz de me explicar porque raios ensinar um significa anular o outro?! Eu não sou…

Atualização 2: O “Ação Educativa” divulgou uma nota da qual ressalto:

O trecho que gerou tantas polêmicas faz parte do capítulo “Escrever é diferente de falar”{{não acredite em mim}} 

O resto da nota é importante também, mas desnecessário a quem sabe ler. Agradecimentos à leitora @vivian_ka que me alertou para a nota.

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6 comentários

  1. Luiza Rey disse:

    Oi! Acho que essa foi a opinião mais completa e sensata que li até agora. Mas só pra deixar registrado aqui tb, embora a fala do Alexandre Garcia tenha revelado todo o seu idealismo da direita, não acho que ele está completamente errado… pra mim, ele estava falando do “nivelar por baixo”, e o Sérgio Nogueira complementou dizendo que preconceito é acreditar que a criança não é capaz de aprender a norma culta. Mas te entendo completamente, e é bom ver a opinião de quem de fato leu o livro. Sou totalmente a favor da “liberdade gramatical” da língua falada (não que alguém precise ser a favor, pois é uma constatação; e não que a variação linguística seja um caos), mas ainda não sei se sou a favor desse livro no currículo das escolas hehehehe… preciso ler outras opiniões ainda! :) Entendo e acredito que todo brasileiro deve ter essa consciência com relação à língua, mas para isso, é preciso antes saber a normal culta, não? Como dizem, “para errar, tem que saber o certo”.

    {{Só não entendi a parte de que ensinar um é anular o outro… só isso}}

  2. mani disse:

    só pra acrescentar que o livro se dirige a EJA (educação de jovens e adultos) que geralmente já falam “inadequadamente” e visa deixá-los mais à vontade para que possam aprender o que precisem. Como diz a autora, pra que ensinar o que todo mundo já sabe? Em EJA o maior desafio é elevar a autoestima de pessoas acostumadas a serem chamadas de burras por causa do seu falar não-culto.

  3. DanielBmf disse:

    Continua sagaz, caro amigo!

  4. silmarques disse:

    Para quem quiser conferir, o capítulo tão discutido do livro, em pdf. http://migre.me/4z4OO Foi tuitado pelo Sergio Leo. E não, não é o liberou-geral que a imprensa está dizendo. Não mesmo.

  5. jmpsousa disse:

    Confesso que no início da polêmica eu também me posicionei contra a implementação do livro. Penso que o que está ocorrendo com muitos, e ocorreu também comigo, é a desinformação a respeito do assunto. A velha história: “não vi e não gostei”. Isto posto, digo que mudei de opinião após ler e reler várias pessoas que comentaram sobre o assunto. A questão que aí está, penso eu, não é um livro que ensina o errado, mas informa que existe uma forma de falar, que não cabe em qualquer situação.

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