Adivinha quem está falando...

 

Há mais de 120 anos da abolição da escravidão, o IBGE ainda divulga pesquisas que mostram a condição de desigualdade da população negra em relação à branca. O índice de analfabetismo é maior na parcela da população afrodescendente enquanto a renda e o tempo de estudo são menores. Mais do que atribuir às desigualdades explicações históricas e econômicas, é preciso pensar que o preconceito, produto dessas contingências, tem utilizado como disfarce capas e máscaras cada vez mais sofisticadas para sustentar uma sociedade desigual.

A pesquisa de Venturi e Paulino (1995) percorreu todo o território brasileiro e constatou que 89% dos brasileiros reconhecem a existência de preconceito racial, porém apenas 10% assumem ser preconceituosos. O resultado remete a célebre indagação do movimento negro “Onde você esconde o seu racismo?”.

São muitas e bastante elaboradas as formas de encobrir os discursos e práticas de discriminação. A condenação moral e judicial por práticas racistas tem aumentado a pressão pelo politicamente correto, o que faz com que o racismo seja expresso de modo mais disfarçado. Atribuir o preconceito ao outro (povo brasileiro) e negá-lo individualmente é, portanto, uma das novas formas de expressão do racismo. Outra maneira de expressar “cordialmente” o preconceito, segundo Todorov (1999), se dá pela negação ou desvalorização da identidade do outro e pela supervalorização da própria identidade. Nesse último caso, não há necessidade de atribuir traços negativos à população afrodescendente, basta supervalorizar a cultura branca. Já Sears e Kinder (1971), apontam para as formas de racismo simbólico, isto é, são defendidos valores igualitários, mas não políticas baseadas nesses valores. O programa de cotas raciais no Brasil ilustra bem esse exemplo.

Argumentos que desafiam jovens afrodescendentes a ter a mesma pontuação que os brancos no vestibular e colocam em xeque a capacidade intelectual de quem passa no exame pelo sistema de cotas, são exemplos dessas novas formas de preconceito mascarado. Ignoram as Estatísticas que mostram que entre o branco e o negro de escola pública existem diferenças cruciais que dificultam a permanência na escola ou a continuidade dos estudos, daquele cuja família provavelmente tem o salário e o tempo de estudos menor do que a família do branco. Ignoram no passado não tão distante, a violência a que foi submetida o povo negro, que perdeu seu nome, sua família, sua língua, seus costumes, sua liberdade. Ignoram a violência física, sexual e psicológica a que muitos não resistiram. Por fim, ignoram que essa exploração foi feita pelos seus antepassados brancos. Negar as especificidades da população negra em relação à branca implica em rejeitar uma realidade de discriminação e esquecer um passado a ser reparado.

Anulando as diferenças entre negros e brancos, pretende-se isentar o branco de culpa pela desigualdade racial, o que permite evitar a explicitação do preconceito. Bolsonaro – para utilizar um exemplo atual – ao dizer que não seria operado por um médico cotista, tenta encobrir o seu racismo pelo discurso da meritocracia cujo pano de fundo seria uma (in)existente igualdade de oportunidades, o que leva ao equivocado raciocínio de que a dificuldade de ascensão econômica e social dessa população é uma questão de (in)competência individual.

Casos como o de Bolsonaro, mostram que a política de cotas além de ser um programa bem sucedido de inclusão social, tem o papel fundamental de promover o debate sobre a questão racial e abrir espaço tanto para o combate do mito da democracia racial quanto para desvelar formas de discriminação – no caso dele estão escancaradas.

Entretanto, se engana quem pensa que somente a ascensão econômica e social põe fim à discriminação racial. O estudo documental de Santos (2005) aponta para a vinculação feita entre África e inferno, trevas e cor preta, Satanás e o negro. Enquanto a cor branca sempre esteve associada à pureza, razão e civilidade; a cor preta tem o sentido oposto. O preconceito, portanto, também está associado à cor da pele já que a cor preta, por si só, é estigmatizada.

O que acontece então com negros bem sucedidos? Sofrem menos discriminação? Basta lembrar os casos de jogadores de futebol chamados de “macaco” em campo para saber que não. O que pode atenuar a manifestação do racismo em relação a negros que ocupam posições de destaque é a quase invisível, mas muito difundida, ideologia do branqueamento. Adorno (1996) analisou os boletins de crimes violentos e verificou que conforme o réu era inocentado, sua cor mudava nas descrições (podia começar negro e tornar-se moreno claro ou branco). Em outras palavras, por não corresponderem ao estereótipo racista de pobre, bandido e mau caráter, negros que tem sucesso profissional/social são embranquecidos.

Contudo, há uma luz no fim do túnel. Além da eficácia de políticas públicas que visam não apenas reparar, mas também viabilizar a identificação de racismo enrustido; pesquisas mostram que um dos principais mecanismos de defesa contra as marcas de discriminação que a população negra carrega em sua história, seria trabalhar as especificidades do povo negro – justamente o que o mito da democracia racial tenta encobrir.

O estudo comparativo de Júnior e Vasconcelos (2005) com crianças sergipanas residentes na periferia e no quilombo apontou para o fato de que apesar da ideologia do branqueamento operar em ambas as residências, no quilombo as crianças tinham menos atitudes de esquiva em relação à autoimagem do que as crianças da periferia, já que eram estimuladas a explorar aspectos positivos da cultura e origem do povo negro. Outras pesquisas como a de Seaton, Yip e Sellers (2009) concluem o mesmo: a identidade racial bem trabalhada fortalece a autoestima.

Diante de tantas formas camufladas de discriminação, é imprescindível colocar o preconceito no divã. Ele não é do outro, é nosso. Está enraizado em brancos e negros. Finalizo não com teorias sobre a reprodução da hegemonia branca pela escola e mídia alicerçadas aos interesses da classe dominante. Talvez a transcrição de um trecho de uma entrevista com uma dessas crianças negras residente da periferia de Sergipe seja mais convincente em mostrar que devemos nos responsabilizar, inclusive, por esse preconceito introjetado, que deixa marcas pouco visíveis aos olhos de quem não ousa combater o próprio preconceito.

 

Entrevistador: Como você se vê: negro, índia, branca ou outra coisa?
Criança: Morena
Entrevistador: Você gosta de ser assim?
Criança: Gosto.
Se pudesse mudar você mudaria?
Mudaria. [Demorou um pouco e fechou os olhos]
Eu seria branca, tio.

Renata Winning é estudante de Psicologia – PUC SP, estudiosa do tema. O texto foi adaptado especialmente para o blog ImprenÇa. As referências bibliográficas podem ser obtidas através de pedido pelo formulário de contato.

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