Caso você não seja uma usuária do Twitter e não tenha a mais vaga ideia do que significa Rica Perrone, saiba minha senhora {{ok, e meu senhor, humpf}} que Rica Perrone é um blogueiro associado ao portal Globo.com, e esteve por algum tempo {{ainda está?!}} entre os assuntos mais falados do tal microblog {{pelo menos é assim que o G1 se refere a ele…}}.
Porque ele é bonito, meu senhor? Não. Mas porque ele escreveu um artigo com o sugestivo nome: “Hipocrisia tem limite” {{não acredite em mim}}. O assunto do tal post foi nada menos nada mais que aquele caso, já comentado aqui, de homofobia no vôlei {{ele colocaria aspas no homofobia, e eu teria motivos para uns três ou quatro post sobre o uso de aspas no jornalismo…}}. Caso a senhorita não se lembre, aí vai:

Vôlei Futuro dá lição contra o preconceito

Pois bem. O tal blogueiro do tal portal no tal post entendeu que a ação da equipe Vôlei Futuro foi nada mais nada menos que um ato de Hipocrisia, pura e simples.

Eu, particularmente, não acho que Rica Perrone seja homofóbico. Acho apenas que ele não se deu conta, como muitos Brasil afora {{ou seria adentro? Sei lá, você pegou o espírito do porco}} do preconceito que foi ali representado.

Vamos aos argumentos do jornalista-esportivo, inicia ele com a retórica padrão daqueles que sabem que não são preconceituosos {{ou que pensam não ser}} atribuindo toda discordância a um radicalismo sem fundamento {{pois é, eu estudei retórica, aí danou-se}}:

Eu sei, é bonito defender causas nobres e que estejam na moda. Sei também que vai pintar ONG pra tudo que é lado me enchendo o saco e interpretando o que eu digo, também, como uma “ofensa” ou “preconceito”. Mas, convenhamos, sem viadagem… já deu né?

O leitor que não se iluda, a resposta mais óbvia {{chamar o blogueiro de homofóbico pelo termo ‘viadagem’}} é a armadilha em que muitos caem e perdem o argumento junto com o respeito. Não, Rica, dessa escapamos…

A questão, continua ele:

Cruzeiro ser punido no Voley porque sua torcida chamou o carinha do outro time de “viado” é a piada do século. Pra mim, é claro. Pra muitos é a “lição de moral” do ano.

Não, não acho que seja “a lição de moral” do ano {{escapei dessa também…}}, mas não considero piada nenhuma os fatos ocorridos. Primeiro porque toda frase tem um contexto, Rica, e o contexto de onde você parece fingir não saber não se limita a uma quadra de vôlei. Sim, porque não são seres que brotam na quadra e de lá não saem, mas seres humanos que moram num país homofóbico. Sim, homofóbico. Eu listei, no post “Brasil: Preconceituoso com orgulho” fontes e dados que comprovam que o Brasil é lider mundial em assassinatos de homossexuais.

É dentro deste país que se encontrava o ginásio. Pessoas nascidas neste país é que gritaram a um jogador homossexual gritos com o intuito de ofender.

Rica Perrone, que de bobo não tem nada, argumenta com um frágil aspecto:

 (…)sujeito que nasce negro ou branco não pode ser discriminado pela cor que tem. Racismo é CRIME, é absurdo e não faz sentido.

O que não tem NADA a ver com o fato de eu virar pros meus amigos negros e chama-los, carinhosamente, de “Negão”. Pois assim o Pelé, rei do futebol, se chama, por exemplo.

Como nunca dei ataque por ser chamado de “gordinho” ou “alemão”.

São termos que, goste você ou não, perderam o tom ofensivo. É absolutamente popular, comum, inofensivo.

O problema, finge ele não saber {{ou vai ver não sabe mesmo…}} é que as palavras não tem conotação racista nenhuma, mas o modo como são pronunciadas tem. E quando você chama o teu colega são-paulino de bambi, viado, os dois interlocutores tem exata noção de quais são as suas intenções.

Quando uma torcida adversária grita:

Viado… viado…

Quando apenas um jogador, homossexual, pega na bola {{EPA! }} ela está sim, sendo homofóbica. Como a comparação que o blogueiro faz é com o racismo eu dou logo a letra, de maneira simples e direta:

Rica Perrone, ao encontrar um caixa de banco negro que nunca viu na vida, diria a ele: “Viu, preto, quero pagar essa conta aqui…”

Quero crer que não. E ninguém faria isso porque não sabe como a outra pessoa irá ouvir. No caso de uma torcida adversária é ainda pior, porque o jogador sabe que a intenção é ofender. Caso bem diferente da relação descabida proposta pelo blogueiro:

Onde é que está o processo contra as torcidas que chamaram o Ronaldo de gordo?
Cadê a liga da justiça pra encher o saco quando xingam a mãe do juiz no futebol?

A diferença, Rica, é que ainda não matam gordos toda semana, nem juízes toda semana. Pelo menos não pelo fato deles serem gordos ou juízes. E quando Perrone pergunta se a torcida do Santos foi homofóbica ao gritar apenas para Richarlyson que “viado…viado…” a comparação é válida sim. E a torcida foi homofóbica sim.

Pergunta Perrone:

Me lembro que na Vila Belmiro a torcida do Santos meteu faixas tirando sarro do Richarlyson, que jura não ser gay. No outro dia tinha jornal e principalmente moralista babaca na tv dizendo que o “ato homofobico” da torcida….
Que homofobia se ele é homem???????

Richarlyson pode ser homem, Rica, e ser gay {{aqui ele dirá, com certa razão, que pego no pé, procuro pelo em ovo, ok…}}. Ainda que seja heterossexual {{ainda que seja porque para mim não faz diferença, embora a própria organizada do São Paulo jamais tenha gritado o nome do jogador nos estádios}} o ato de ofensa pelo grito ‘viado…viado…é sim, homofóbico. E a razão, Rica Perrone é que a homofobia vem de quem grita, não de quem é humilhado.

Não acho que tenha sido “a lição de moral do ano”, como sugeriu Perrone {{com toda certeza foi a de marketing}}. Mas é algo que precisa ser aplaudido, especialmente quando feito num país homofóbico como o nosso.

Inscreva-se em nossa Newsletter

Inscreva-se em nossa Newsletter

Não perca nenhum conteúdo. Não se preocupe, seu e-mail não será repassado a ninguém.

Obrigado, sua inscrição foi feita!

Compartilhar

Compartilhe esse artigo!