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A morte de mais uma ciclista em São Paulo demonstra mais do óbvio: a cidade não tem plano de mobilidade urbana. E os jornalistas não têm o menor senso de humanidade ou inteligência.

{{Crédito da foto:{link url="https://www.facebook.com/pablocapile"} Pablo Capilé{/link}}}

Antes de começar esse texto é preciso esclarecer alguns pontos. O blog continua achando que a solução a ser buscada é o transporte público.  E um breve relato pessoal.

Na última sexta-feira resolvi chegar mais cedo no trabalho. Era preciso fazer uma série de relatórios e o horário normal não daria conta. E porque cheguei mais cedo pude observar três {{de um total de cinco}} dos colegas de trabalho que utilizam a bicicleta como meio de locomoção.



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Estavam em choque. Podia ser qualquer um, podia ser conosco. E enquanto eu lia uma notícia da folha a respeito ouvi um grito ao fundo da sala. Era minha chefe: “puta que pariu, ela era minha amiga”. A comoção, claro, tomou conta de todos nós. Passado o tempo do choque, resolvemos levar a colega a um ponto de táxi, não havia condições de sair pedalando naquele estado. Nem dirigindo, se fosse o caso.

Ela preferiu ir a pé. Subi de volta ao meu computador, em meio a gráficos e um estado de choque, podia realmente ter sido um de nós. Voltei à reportagem…

{{não acredite em mim}}

Uma pessoa havia sido morta. Um trabalhador havia acabado de se tornar um assassino e o primeiro parágrafo da notícia destacava o tamanho do trânsito no local.

Chico Buarque não faria melhor {{aproveite e leia este texto do Sakamoto – não acredite em mim}}.

E concluí que vivemos em uma bolha de irracionalidade. E em um total falta de comprometimento com a cidade, com a vida, com tudo.

A mobilidade urbana começa no horário de trabalho das pessoas. Não há lógica, em muitas áreas, de seguir um mesmo horário para tudo. Quem trabalha com o público pode ser. Mas há muita gente que poderia trabalhar em horários alternativos, entrando mais tarde e saindo mais tarde, por exemplo.

É tão impossível assim que alguém entre às 13hs e saia às 21hs? Ou às 14hs e saia às 22hs? Não, trabalhamos todos nos mesmos horários. E mesmos locais.

Porque quando a especulação imobiliária chega ela não planeja. Ela simplesmente adquire casas no bairro da Lapa, por exemplo, e constrói prédios. E uma rua que abastecia 2 mil pessoas passa, de uma hora para outra, a atender 20 mil. E o trânsito pára. E as pessoas não entendem o porquê.

Há uma mini cidade chamada Zona Leste {{1 e 2}}. Essa cidade inteira sai em caravana e se dirige à Avenida Paulista, Faria Lima e Berrine. E – depois da expulsão dos craqueiros – em breve à Luz. E a gente vê a Radial Leste {{principal via de ligação entre essa mini cidade e os centros comerciais}} parada. E não entende.

Trânsito

{{Note que um lado está parado e o outro livre, percebe a burrice?!}}

Motociclistas morrem todos os dias {{sobre isso o blog já escreveu}}. Ganham por viagens. São obrigados a pagar pela manutenção da motocicleta. Resultado: preocupam-se mais em chegar que em chegarem vivos. Uma rota de um motoqueiro em São Paulo custa, para o consumidor final, cerca de 40 reais. Sobra para o motoqueiro menos de 10.

E os motoristas, igualmente vítimas de tanta falta de planejamento, estressam-se por não saírem do lugar. E em meio ao estresse fecham de forma proposital os motoqueiros. Sem darem conta de que podem matar alguém. E matam.

Motoristas de ônibus são multados quando não concluem a rota dentro do tempo estipulado. Estipulado pelos patrões. São motoristas de ônibus, não de helicópteros, é bom lembrar.

E em meio a este caos sem tamanho alguém resolve ir de bicicleta ao trabalho. E desvia de motoqueiros, leva fechada de carro, é desequilibrada por um ônibus igualmente sem equilíbrio. E cai. E morre.

Os bike ativistas repetem em coro a frase: não foi acidente. Depende do ponto de vista. Do ponto de vista dos prefeitos, não foi mesmo. Do ponto de vista do motorista de ônibus, do motoqueiro, do motorista do carro, da menina de bicicleta, foi sim.

Estamos todos em uma bolha horrível de irracionalidade. Somos todos vítimas: bicicletas, carros, ônibus e motos.

O pessoal da manifestação pedia mais amor no trânsito. Mas o que falta é porrada, no âmbito político da coisa toda.

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