O texto que se segue tem boa pitada de sentimentalismo, um pouco de existencialismo e muito de pessimismo. Não há humor no texto que se segue. Não há piadas ou ironias. Não há fatos, tampouco. Não há argumentação plausível nem teorias embasadas. O texto que se segue não é mais que um suspiro de cansaço em meio a tanta vontade de caminhar. E não está interessado em atrair seguidores para a mesma tese.

Leia, se quiser.

Pouco tempo atrás a cidade de São Paulo vivenciou um dos episódios mais bizarros entre os recentes acidentes envolvendo motoristas e ciclistas. Um motorista bêbado atropelou um ciclista e arrancou seu braço. O bizarro, não foi o braço ter sido arrancado. O bizarro foi o motorista, que dava carona a um amigo, deixar o amigo em casa, levar o braço até um ponto distante da cidade e simplesmente jogar um braço no rio.

A bebida explica o acidente. Mas o que explica alguém não parar para ajudar alguém? O que explica levar um braço ‘para passear’? O que explica o silêncio do amigo que ganhava a carona?

Vivemos tempos estranhos. Tempos em que as pessoas que te julgam aliadas não vêem problemas em te mandar à merda ou te desqualificar simplesmente porque discordou de um ponto específico. Vivemos tempos em que as pessoas que, em tese, querem um mundo melhor {{alguém não quer?}} agem de forma tão monstruosa quanto aquelas que discordamos. Tempos da militância do ódio.

Um tempo em que para se combater a exclusão de um Feliciano se promove a exclusão de uma religião inteira. Ou de todas as religiões.  Tempos em que postar uma foto ao lado da pessoa que se ama é motivo de polêmica.

Tive a oportunidade de ver o Ballet da Cidade no Teatro Municipal de São Paulo. Foram duas apresentações. A segunda, chamada Paraíso Perdido, tem como referência as pinturas de Hieronymus Bosch (1450 – 1516) e me fez viajar num parque ilusório. Naturalesco, Sincero, Visceral. Mas, sobretudo, humano.

{{Foto roubada do jornal Valor e de autoria do fotógrafo Jorge Etecheber}}

 

No dia anterior eu tive a oportunidade de assistir o divertidíssimo espetáculo do meu amigo, Zé de Abreu, Bonifácio Bilhões. E a oportunidade de sair com antigos amigos, de rever gente que eu não via há muito tempo. De conhecer gente que só conhecia online. De voltar contente para casa.

E depois li dois tweets que o Zé repassou, de um seguidor. O primeiro dizendo da admiração dele pelo Zé. E o segundo:

Nojo? A discordância política causa nojo? Que raios de mundo nós vivemos, onde um artista que declara suas posições políticas causa nojo? Que artistas as pessoas desejam? Qual o papel da arte, afinal?

Eu entendo, faz todo sentido, que alguém não concorde com a posição política que eu tenho. Que o Zé de Abreu tenha. Mas isso não é causa de nojo. É causa de discussão, é causa de argumentação. Ninguém é menos ator porque tem posições políticas diferentes da minha.

É piegas e fora de moda, eu sei.

Mas é que sou um tipo velho. Um tipo que acha que discordâncias políticas são, na verdade, pessoas que desejam a mesma coisa, mas caminhando por trilhas diferentes. Não sou do tipo que acha que a direita é má. Sou do tipo que acha que o caminho passa pelo diálogo. Pela informação.

Daí abro meu Facebook e alguém compartilha um texto sobre Gagau {{não acredite em mim}}. Sujeito indignado porque agora babá precisa ser tratada como trabalhadora assalariada. E cita, no texto ficcional, a dificuldade de fazer a filha dormir, por conta da hora extra que terá de pagar à babá.

– Quer dormir com “oia etra”! – intromete-se Tetê.
– Tetê, o correto é horas extras e não “oia etra”. E você não pode dormir com isso não. Vá dormir! – Corrigi.
– Papai, tô de medo de “oia etra”.
– Papai também, filha!
– Quer dormir com você, papai!
– Papai também filha.
– Você vai dormir no banco?
– Como, filha?
– Você vai dormir no “banco de oia”?
– O correto é banco de horas filha. Não, papai não vai dormir no banco. Papai vai dormir na sua cama. E vamos logo antes que o monstro do adicional noturno venha nos pegar!
– Tô com medo do monstro do “aglicinal botuno” – Disse Tetê assustada.
– Não se preocupe, filha. Às cinco horas da manhã ele vai embora!

Nisso, a danada da babá entra no quarto e diz:

– Boa noite minha princesa!

Não deixo por menos:

– Boa noite, nada! Você trata a menina assim e ainda vem dar boa noite!?
– Ok, Sr. Bruno. Eu durmo com essa menina a dois anos, todas as noites. E não iria conseguir dormir mesmo lá no meu quarto sozinha não! Eu vou dormir é aqui com ela.
– Mas eu não vou pagar horas extras, não!

Pergunto-me, meio besta, meio perplexo. Inteiramente abobado: É tão difícil assim fazer a própria filha dormir? É assim tão errado tratar uma babá da mesma forma que se trata um gari, um professor ou executivo perante as leis?

No meio da peça do Zé me pego perguntando-me se eu faria isso ou aquilo. Sou, de fato, um canalha? A doçura que me tomou por concluir o óbvio justifica qualquer discussão que este blog venha a ter.

E, durante o ballet, me pego emocionado, observando o silêncio que se fez para que o animal ali representado se reconhecesse em meio ao mundo. E de ser acolhido, de ser gerado. Um silêncio que dava cor aos pensamentos piegas. Ri discretamente da minha própria velhice de espírito. Ninguém mais é tão ingênuo.

Mas deviam ser.

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