Então, eis que quase 50 anos depois, as organizações Globo resolvem, finalmente, admitir: O apoio editorial à ditadura foi um erro.

vetor  emissora rede globo

 

Para quem não sabe, a Rede Globo nasceu justamente da própria ditadura. Para quem desconhece, o documentário “Muito Além do Cidadão Kane” explica e demonstra claramente suas origens:

http://www.youtube.com/watch?v=MtQTejGeL4M

A primeira TV do país, fundada por Chateaubriand, focada nas classes mais altas {{que podiam ter TV}}, chamava Tupi. Foi também a primeira a produzir novela, em, vejam só, 1964 {{ela era produzida por publicitários, veja só}}.

A Globo foi ao ar pela primeira vez em 26 de abril de 1965.

Roberto Marinho era dono da emissora, cujo pai havia fundado em 1925 “O Globo”. Na década de 40 Roberto Marinho fundou a rádio Globo. Obteve a primeira concessão pública em 1957 de Juscelino e a segunda de… João Goulart.

Roberto Marinho, como mostra o documentário acima, em 1962 firmou acordo com a Time-Life {{que tinha interesse na Venezuela, Argentina e aqui no Brasil. Achavam que o mercado estava em crescimento e podia ser útil}}.

Acontece que abrir empresa de mídia no país só poderia ser feito por brasileiros.

Walter Clark, à época com 29 anos, foi contratado pra tirar a emissora do buraco que havia se metido, mesmo com orçamento de 6 milhões de dólares {{a Tupi, maior do país, tinha 300 mil dólares de orçamento}}. Ele foi, bem posteriormente, substituído por Boni {{pai de Boninho, que adora jogar ovos pela janela – não acredite em mim}}.

Basicamente foi dando um golpe na empresa Time-Life, com apoio da ditadura, que ela pôde, finalmente existir. Mas, hey, não sou eu quem está dizendo, é o próprio Roberto Marinho, leia:

Em seguida, Roberto Marinho fez um resumo do contrato de participação e destacou o cuidado que a TV Globo teve em circunscrever o acordo realizado ao âmbito estritamente financeiro. A cláusula 5ª explicitava que “a contribuição financeira não dava ao Time-Life o direito de possuir ações de capital da TV Globo nem qualquer direitos que as leis brasileiras atribuíam às ações de capital”. Dizia mais esta cláusula que ficava também expressamente entendido “que Time não terá qualquer interferência direta ou indireta na direção ou administração da TV Globo”.

{{não acredite em mim – Memória O Globo}}

Ou foi um golpe ou então os diretores da Time-Life são as pessoas mais estranhamente benevolentes que já passaram na Terra, incluindo Jesus.

A ditadura investiu em telecomunicações, em crédito para compra de televisores. Em 1968, temos, como se sabe {{espero que você saiba}} o AI-5. Com ele, censura nos jornais e veículos de imprensa.

Em 1969, a ditadura descobriu que o acordo era ilegal. O que fez? Deu todo o patrimônio à família Marinho. Um incêndio no estúdio que ficava em São Paulo, permitiu que o valor pago pelo seguro se transformasse em investimento estrutural no Rio de Janeiro. Com ele, o Jornal Nacional.

A única empresa de telecomunicações que se opôs à ditadura foi a TV Excelsior, concorrente, que perdeu a concessão em 1970, ano da Copa do Mundo.

Mas, calma, crianças, isso é coisa do passado. Hoje em dia, tudo mudou.

Nas manhãs temos o Bom Dia Brasil, com comentários políticos isentos e livres da ditadura, feitos pelo nobre Alexandre Garcia. Que entre 1979 e 1980 foi simplesmente porta-voz oficial de João Batista Figueiredo, então presidente do país.

Mas, dizia eu, hoje estamos mais abertos, mais pra frentex!

{{Jogaram merda na Globo – Crédito da foto: {link url=”http://jecasouzablog.files.wordpress.com” target=”_blank”} Jéssica Souza{/link}}}

Hoje a Globo percebeu que ter apoiado o golpe foi um erro {{para quem? Para ela foi um baita de um acerto…}} e fez um editorial.

Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro

  • A consciência não é de hoje, vem de discussões internas de anos, em que as Organizações Globo concluíram que, à luz da História, o apoio se constituiu um equívoco


{{não acredite em mim – O Globo}}

 

O editorial revela que, à luz da história, o apoio foi equivocado. Não, é claro, se levarmos em conta sua estrutura e origens. Mas, sob um ponto de vista, digamos, ético.

Inicia ele dizendo:

De nossa parte, é o que fazemos agora, reafirmando nosso incondicional e perene apego aos valores democráticos, ao reproduzir nesta página a íntegra do texto sobre o tema que está no Memória, a partir de hoje no ar:

E segue:

Naqueles instantes, justificavam a intervenção dos militares pelo temor de um outro golpe, a ser desfechado pelo presidente João Goulart, com amplo apoio de sindicatos — Jango era criticado por tentar instalar uma “república sindical” — e de alguns segmentos das Forças Armadas.

A dúvida aqui é se devemos comentar o fato de reafirmar o incondicional e perene apego aos valores democráticos justificando que, ora essa, contra comunistas, sabemos todos, vale tudo. Ainda que o comunista tenha sido eleito… Não… Não vamos comentar…

Na noite de 31 de março de 1964, por sinal, O GLOBO foi invadido por fuzileiros navais comandados pelo Almirante Cândido Aragão, do “dispositivo militar” de Jango, como se dizia na época. O jornal não pôde circular em 1º de abril. Sairia no dia seguinte, 2, quinta-feira, com o editorial impedido de ser impresso pelo almirante, “A decisão da Pátria”. Na primeira página, um novo editorial: “Ressurge a Democracia”.

Ora, canalhas comunistas que ora lêem este blog, se você tem um jornal, invadido por fuzileiros navais, como raios você publica um editorial chamado Ressurge a Democracia ?

E, por que demônios você demora QUARENTA E NOVE ANOS para entender que isso foi um erro? E porque publica, vejam bem, o editorial talvez mais relevante desde o editorial em apoio à ditadura, EM UM DOMINGO ÀS 17HS ?

 

Longe de mim ensinar alguém a fazer alguma coisa, mas não me parece o horário mais nobre.

Ah, seu Caipira safado, você tá de picuinha, fala do editorial!

Ok, Ok, apressado consumidor, voltamos ao editorial…

Em todas as encruzilhadas institucionais por que passou o país no período em que esteve à frente do jornal, Roberto Marinho sempre esteve ao lado da legalidade.

 

Fosse isso verdade, cambada, não precisaríamos ler o próprio editorial, correto? Mas isso não é o mais grave. O mais grave vem adiante:

Os homens e as instituições que viveram 1964 são, há muito, História, e devem ser entendidos nessa perspectiva. O GLOBO não tem dúvidas de que o apoio a 1964 pareceu aos que dirigiam o jornal e viveram aquele momento a atitude certa, visando ao bem do país.

Os homens e instituições que foram afetados pelo golpe de 64 continuam vivos em nossas memórias. Na educação precária que temos no país, na hegemonia de um padrão ideológico editorial. E, principalmente, na memória dos que foram torturados, perseguidos e mortos durante o Golpe Militar.

 

Ainda aguardamos os pedidos de desculpa pelo debate Collor x Lulla, pela deturpação da pesquisa Ibope na eleição de Brizolla, pela campanha das diretas já…

E não, pedir desculpa não é sinônimo de ser desculpado. A gente aprende isso quando criança, dos nossos pais.