O disparo da bala de borracha partiu de uma arma de calibre 12. O tiro foi certeiro, exatamente no olho esquerdo. Pouco tempo depois, pós exames clínicos, ficou nítida a gravidade da agressão: afundamento do cristalino e retina deslocada.

A grave consequência desses danos foi a perda da visão. Para todo e qualquer cidadão esta é uma perda lastimável. Imagine para um fotógrafo? É como arrancar os dedos das mãos de um pianista. Ou cortar as pernas de um jogador de futebol.

Dor é dor, não importa como ela é causada ou quem. Mas a realidade é que hoje me tornei um fotógrafo carregando uma deficiência visual para o resto da vida. Sem uma completa noção da profundidade de campo (com a perda da visão a noção também se foi), apenas atravesso ruas e avenidas quando tenho certeza de que todos os carros estão parados. Dentro do metrô, em horário de pico, sou empurrado por figuras de uma cidade apressada por andar com mais calma. No restaurante “self-service”, deixo irritado quem esta atrás na fila por demorar em preencher o prato. São coisas assim, banais em em uma vida cotidiana, que me fazem pensar o quanto minha vida foi alterada. Pode parecer pouco em comparação a outras deficiências maiores, mas o pouco, para quem já tinha pouco, torna-se muito. E não é apenas pelo fato de tomar café e derramá-lo para fora da xícara, que escrevo para mostrar que não aceito perder da forma que me foi imposta. Trata-se de uma tentativa de mostrar que, independente da quantidade, eles podem arrancar de você, através da truculência e da violência, o direito de enxergar com seus dois olhos.

Não tão longe quando tiram a vida. Não obstante ao transformar a vítima em culpado.

Diante dessas poucas linhas, talvez você encontre pelo menos um bom motivo para transformar o seu humor em um sentimento de indignação. Porém, diante de um novo fato ocorrido nesta última semana, pode ser que você cidadão ultrapasse o nível mais aguçado de indignação até este presente momento da sua vida.

Todos sabem que, em minha pele, carrego a cicatriz de uma das piores agressões durante os protestos, mas os que pouco sabem, é que não fui o único e muito menos o primeiro. No ano 2000, o fotógrafo Alex Silveira trabalhava cobrindo um protesto de professores na Avenida Paulista em São Paulo, quando também foi atingido por uma bela de borracha no olho, causando a perda de 80% da visão do seu olho esquerdo. Todas as semelhanças entre nós não passa de uma mera coincidência ou não? O fato para qual chamo atenção é sobre a decisão do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) em negar o pedido de indenização ao fotógrafo. Além da negativa, Alex Silveira sai da decisão declarado culpado pela trupe de larápios que julgaram seu caso em primeira instância. Com a palavra, o relator do caso:

“Permanecendo no local do tumulto, dele não se retirando ao tempo em que o conflito tomou proporções agressivas e de risco à integridade física, mantendo-se, então, no meio dele, nada obstante seu único escopo de reportagem fotográfica, o autor [refere-se ao repórter fotográfico] colocou-se em quadro no qual se pode afirmar ser dele a culpa exclusiva do lamentável episódio do qual foi vítima”, concluiu.

O resumo da ópera é apenas um: uma decisão como esta tenta criar jurisprudência para os próximos casos, ou seja, o meu e outros que transitam entre os HDs e as gavetas empoeiradas de uma antiga sala de justiça. Este é o estado, da qual você cidadão elege o governador, levantando o seu muro contra a sociedade mutilada. Hoje, o deficiente sou eu e o Alex Silveira, amanhã pode ser você, mas sinceramente farei o possível para que não. Nem mesmo o meu pior inimigo (se é que ele existe) deve passar pela dor que passei na Rua Caio Prado esquina com a Consolação quando, completamente ensanguentado, clamava por socorro e por minha vida. Mas infelizmente o relator, o juíz e o senhor desembargador, estiveram presente e viram de perto o estrago causado em meus olhos e aos olhos do Alex, pelo disparo da arma da polícia militar. Foi para isso que tanto estudaram?

Termino esta escrita com um informativo: Mais de um ano se passou e nenhuma assistência do estado foi aplicada. Processo indenizatório, por dano moral e físico, parado aguardando julgamento. Apoio médico e psicológico em nenhum momento foi cogitado. Apuração das agressões por policiais, durante as jornadas de Junho, caminhando lentamente dentro da corregedoria da polícia militar do Estado de São Paulo. Sou fotógrafo e este é o retrato do Estado de São Paulo.

Sobre o autor:

Sérgio Silva é autor convidado, fotógrafo e ativista.

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