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A última semana foi marcada por mais dois casos de violência contra as mulheres tendo como personagens principais a televisão brasileira. Um dos casos aconteceu na rede globo e o outro na tv bandeirantes. O foco aqui não é a violência sofrida pela figurinista, mas sim a violência contra as milhares de mulheres espectadoras do programa Pânico na Band.

O programa Pânico na Band foi protagonista pela milionésima vez daquele “momento vergonha alheia” quando um de seus quadros viralizou nas redes sociais na última terça-feira, dia 10 de abril. Com a participação do ator Leandro Firmino que interpretou o personagem Zé Pequeno em Cidade de Deus (2002), o quadro tem o nome “Zé Pequeno do consumidor” e a “proposta” seria “ajudar as pessoas do povão” em uma situação limite, quando Zé Pequeno surge para resolver o problema, utilizando a postura agressiva que é marca do personagem do filme.

Na última edição do quadro que foi ao ar dia 9 de abril, a inspiração foi o caso de assédio contra uma funcionária da rede globo envolvendo um famoso ator de telenovelas. Zé Pequeno saiu às ruas de São Paulo para proteger uma mulher vestida com roupas justas e decotadas que por isso, acabava sendo assediada por machos vorazes. O quadro em si é absolutamente desnecessário e infeliz (assim como todo o programa, obviamente) mas o mais chocante é a assustadora variedade de discursos de exploração, violência, machismo e homofobia que ele concentra.

O fato de uma mulher andar pela rua teoricamente expondo seu corpo justifica a aparição de Zé Pequeno que entra em ação e agride verbalmente os homens, chegando às vias de fato com um deles, empurrando o rapaz que sai correndo do local. Suas principais falas foram “mexendo com a mulher dos outros” e “viado”. Outros casos de assédio se repetem e em uma das cenas, a modelo está em uma lanchonete e se limita a ficar repetindo ao agressor que `”em namorado”, como que se esse fato fosse suficiente para que o homem se afastasse. Mas como? Quer dizer que se ela não tivesse namorado o homem poderia manter o assédio? Se ela dissesse “se afaste ou chamo a polícia” não seria muito mais eficaz? Porque o NÃO da mulher ainda não é entendido como NÃO e o homem continua insistindo e mantendo a mesma atitude? A ideia de que `a mulher dos outros` é uma propriedade que tem que ser respeitada precisa ser riscada do ideário masculino e um NÃO tem que ser entendido como NÃO.



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O discurso das entrelinhas remete ao fato de que mulher precisa da “proteção” de um homem, seja o namorado ou o ensandecido personagem Zé Pequeno. Esse tipo de discurso faz com que o homem repita o padrão de reagir a momentos de conflito envolvendo mulheres com violência, mantendo o senso comum do macho dominante e agressivo, o super herói que salva a indefesa donzela. Violência gerando violência e mantendo essa roda girando. Zé Pequeno xinga todos os homens de “viado” dando eco aos discursos homofóbicos que proliferam pelo mundo afora e também dentro do Brasil,

O encerramento após longos 25 minutos é mais uma sequência de horrores. Zé Pequeno anda freneticamente de um lado para outro vociferando palavras agressivas contra a câmera como que querendo intimidar os homens, em especial o ator global que assediava a funcionária. O discurso do medo segue sendo utilizado para educar.

O homem precisa entender, que se diga mais uma vez e quantas forem necessárias, que não precisamos desse tipo de atitude para nos defender. Não precisamos de abraços e “vem cá meu amor” quando somos agredidas, precisamos de homens que estejam ao nosso lado e que entendam que esse ciclo de violência precisa ser interrompido e que quando for necessário, fazer valer a lei com punição aos culpados.

A Lei Maria da Penha completa 11 anos e a sociedade brasileira ainda aceita esse tipo de programa nos canais televisivos, uma concessão pública que não cumpre nenhum papel social e mantém o baixo nível de qualidade de seus conteúdos, especialmente no domingo a noite. A simulação desse tipo de situação mantém o senso comum de que mulher vestida com roupas curtas, justas ou decotadas dá ao homem o direito de assediá-la. É preciso repetir que mulher pode se vestir como quiser sem que o homem se sinta no direito de tomar posse desse corpo.

O momento mais importante ficou perdido entre as bravatas de Zé Pequeno. Um grupo de mulheres se revoltou contra a atitude de um dos agressores e partiu em defesa da modelo. Após repetidos NÃOS da modelo, o rapaz chega a tocar a mulher, que se afasta e diz ainda com educação “dá licença”. Um sonoro coro de mulheres repete DÁ LICENÇA e VOCÊ TÁ LOUCO? até que uma dessas conscientes mulheres empurra o homem, que sai correndo. É um contra ataque ao padrão globo de qualidade onde as mulheres podem ser tratadas como mercadoria e serem expostas à situações de exploração sem nenhuma punição ao agressor. Não se justifica o fato das mulheres agredirem o homem, mas a união delas é a voz que deveria gritar até que todos ouçam: DÁ LICENÇA! Não somos mercadoria!

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