Tiago Leifert, ex-jornalista da Rede Globo e atualmente apresentador de programas de entretenimento publicou um texto na GQ Brasil. Intitulado “Evento esportivo não é lugar de manifestação política”, o artigo é uma ode à ignorância, uma celebração à alienação esportiva. Citando um exemplo americano, da NFL, Leifert sugere que esporte deve ser única e exclusivamente uma prática de diversão ao povo, mais ou menos como Júlio César entendia as corridas de bigas, na Roma clássica. Ben-Hur certamente discordaria.

Leifert, que quando ainda era jornalista, reclamava de ex-jogadores ocupando as vagas de comentaristas televisivos, como você pode ver no vídeo abaixo:

 

Pois bem, esse ser, que hoje apresenta o Big Brother Brasil e o The Voice Brasil, publicou um texto no qual compara as manifestações contra a polícia americana {{que exatamente como a brasileira, mata e espanca negros pobres}} por parte de jogadores da principal liga de futebol americano com… pizzas. É, parece absurdo, motivo pelo qual eu vou citar o texto diretamente: “Acho também que temos de respeitar os espaços destinados à diversão, senão nosso mundo vai ficar ainda mais maluco. Imagine só: você chega em casa cansado, abre uma garrafa de vinho e ela grita “Fora, Temer!”. O catupiry da pizza veio em forma de letras “Lula preso amanhã”, e ainda usaram uma calabresa para fazer a letra O. A gente precisa respirar.” {{não acredite em mim – GQ}}.

Com a mesma profundidade do catupiry citado na matéria ele diz “poupar os leitores dos detalhes” mas que este ano é ano de eleição e que futebol não deve se meter neste tema. Estamos no Brasil, é bom lembrar. Um país cujas heranças racistas perduram até hoje, como qualquer meio cérebro é capaz de interpretar nas estatísticas oficiais e, principalmente, nas não oficiais. Um país conhecido pelo Samba e pelo Futebol. Vou poupar o samba, mas a leitora sagaz e o leitor inteligente são capazes de buscar em qualquer wikipedia que o valha, as origens do principal ritmo musical nacional e ver que as origens são justamente, negras.

O futebol, por sua vez, tem origem inglesa, como até o Leifert arrogante do vídeo acima é capaz de saber de cor. O que ele finge esquecer, no entanto, é que em suas origens o país não permitia que negros jogassem bola. Sem manifestações políticas no futebol não haveria Pelé. Não teria Garrincha, não teria Ronaldinho Gaúcho, se querem um exemplo mais moderno. Ou Neymar. Ou Dida. Ou ainda Jairzinho, Coutinho. Não teria Juan nem Júnior Baiano, não teria Emerson nem pentacampeonato. Nem emprego para Tiago Leifert.

Mas as questões vão além das eleições e Tiago ex-editor do Globo Esporte, sabe muito bem. Sabe por exemplo que o Presidente licenciado da CBF, Marco Polo Del Nero, acusado de inúmeros crimes, só está licenciado porque o poder midiático da Globo e suas tramoias financeiras permitiram que ele se elegesse. Antes disso, Ricardo Texeira, outro acusado de inúmeros crimes, também se manteve no poder, no mínimo, com a conivência do jornalismo não-investigativo da Rede Globo de Televisão. Cujo maior programa esportivo tinha Leifert como editor.

Não falem de política brada Tiago Leifert. E o “grito” soa mais como um pedido desesperado do que um panfleto escrito numa revista de entretenimento. O jornalismo já não tem espaço para Tiago Leifert, nem para este tipo de jornalismo, que ofende os diplomas que ele outrora defendeu. Sócrates denunciou a ditadura que o jornalismo global defendia, em pleno futebol. Antes disso, bem antes disso, outros tantos deram a vida para que negros pudessem jogar futebol. Os mesmos que deram uma carreira a Leifert. Ou teria Globo Esporte sem Pelé, Garrincha e todos os outros ?

Eu sonho com o dia em que minhas pizzas se manifestem politicamente. Com o dia em que o debate político seja pautado pelos argumentos e fatos. Quem sabe assim poderemos ir aos estádios, assistirmos aos jogos e conseguirmos voltar com transporte público, já que a audiência das novelas estará numa discussão menos relevante que a calabresa da casa de Tiago Leifert.

Tiago Leifert foi fazer entretenimento. Já não há lugar no jornalismo para este tipo de alienação.

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