Eleições 2018: Candidatos a vice governador do Estado de São Paulo

ImprenÇa entrevista os vice candidatos ao governo do Estado de São Paulo.

Quem é Ana Bock?

ImprenÇa: Ana como está o período de campanha?

Ana Bock: 

Muita correria, é sempre difícil a gente sair do lugar… Eu dava aula e de repente a vida muda, né? Para mim tem sido muito interessante acompanhar o Marinho pelos bairros da cidade, nós fizemos uma visita a São Mateus, Zona Leste. Eu conhecia São Mateus, já tive trabalhos lá, mas voltar, conversar com esse povo da periferia, que luta… Eu faço pesquisa sobre desigualdade social e sempre me encanto de ver essa gente que insiste em ser feliz. É bacana eles falarem da sua luta, ficam felizes que o Marinho está lá, que eu estou lá. É muito interessante a força que essa gente tem.

Eu gosto porque o Marinho tem a democracia como uma questão fundamental, a redução da desigualdade social como uma questão importante, a melhoria da condição de vida, o compromisso com a população pobre, né? Que precisa dessa atenção. Acho que tem sido uma experiência bastante boa, especialmente para mim que fico lá na academia, fazendo pesquisa sobre isso, mas ter o contato com o povo é muito bom. Até porque o resultado da minha pesquisa não é uma prática de gestão do Estado, ela é uma publicação de um artigo. Eu tenho defendido muito essa aproximação da academia com a vida enquanto estive nos órgãos de classe da minha categoria, que é a de psicólogos. Sempre defendi o projeto do compromisso social, que é exatamente isso, aproximar a psicologia da vida vivia. Então agora estou tendo esta oportunidade com o Marinho.

ImprenÇa: Como deve se dar a relação entre universidade e o governo do Estado ? Nem sempre os dois lados concordam quando o assunto é política pública…

Ana: Acho que precisa sempre de diálogo. As pessoas precisam se habituar a conhecer as diferentes propostas. A universidade precisa ter autonomia, não só porque é importante que se eleja o seu reitor.

A autonomia da universidade é importante porque o trabalho de pesquisa universitária é um trabalho que sofre todas as pressões, as pessoas as vezes não querem que determinadas conclusões sejam divulgadas, não interessa a determinados setores algumas pesquisas, ou então não interessa o conjunto,  interessa a sociedade mas aquele grupo não quer que haja tal investimento.

 Então se corre um risco de uma determinada apropriação da produção das universidades que precisam ser evitadas. E se evita isto com a autonomia da universidade. Ela tem que tomar as suas decisões. Tem que ter o seu comitê de ética, tem que tomar as suas próprias decisões. Isso não quer dizer que o governo do Estado não possa dialogar, conversar; mas ele nunca pode desrespeitar a autonomia porque senão se ele quebra a autonomia num assunto, como a eleição do reitor, ele corre o risco de quebrar a autonomia em tudo. E aí nós teremos problemas graves. A ciência tem que estar a serviço da sociedade, não de um governo em específico.

ImprenÇa: Houve um congelamento dos investimentos públicos em 20 anos…

Ana: Pois é, a autonomia é importante principalmente quando você tem um governo que recua, que diz que vai ser tudo congelado… Imagina, nós vamos afundar a produção científica no Brasil. Taí o corte das bolsas, para 2019 ninguém mais tem bolsa científica de pesquisas, para iniciação científica, doutorado, mestrado…

Iniciação científica é uma coisa bárbara, mesmo que aquele aluno não vá na vida dele se tornar um pesquisador, ele desenvolve o que é fundamental na ciência, que é uma postura inquieta, investigativa, de perguntas. Então tudo isso, essas experiências são super-importantes. Se um governo de um Estado não estiver atento a isso, nós vamos começar a afundar nossa ciência.

ImprenÇa : E como fazer isso, supondo que o Lula ou Haddad, ou quem for o candidato pelo PT, não ganhe?

Ana: Pois é, nós estamos vendo as universidades públicas tiveram um momento de recuperação. Então eu acho que tivermos esse azar Isso significa que a universidade tem muito para lutar ela terá que se construir como Resistência ela terá que o nisso as forças se apresentar à sociedade para pedir o apoio da sociedade desde a sua importância para poder resistir.

ImprenÇa: Qual é a posição da chapa e a sua, sobre a questão das drogas. Redução de danos ou tolerância zero ?

Eu acho que nós temos duas grandes posições, também de novo simplificando que é a visão de que a questão das drogas é uma questão de polícia é uma questão de um combate policialesco e o outro lado que diz isso “É uma questão de saúde ser tratada como uma questão de saúde”.

Uma coisa outra coisa é a questão do tratamento do trabalho com aqueles usuários frequentes de drogas. Primeiro que há toda uma mistificação muito grande em torno do uso da droga.

Porque você tem o uso abusivo e precisa ser tratado e você tem o uso social e tudo acaba junto de uma construção de um problema e não é exatamente um problema que se constitui dessa forma. Na questão do tráfico a discussão de que não seria a solução, a legalização. Você tem a outra posição que é a descriminalização isso poderia ter uma influência grande na desorganização do tráfico.

Mas falando agora do tratamento que não é às vezes não é necessário tratamento médico obrigatoriamente. O de Braços abertos fez uma coisa muito linda. Ele não começou pela interferência no uso da droga. Ele “respeitou”, colocando assim entre aspas, o usuário na sua escolha do uso das drogas. Enfim, ninguém quer o crack, não estamos aqui fazendo qualquer defesa dele. Mas o De Braços abertos começou se aproximando dos usuários. Sistema de saúde, assistência social, né? E perguntaram ‘alguém aqui tem interesse em morar em algum lugar? Vem aí o frio…’ Quem não quis não foi. Depois passou um tempo, estas pessoas arrumaram seu espacinho, no hotel. Aí começaram a perguntar ‘quem é que vai limpar isso aqui? Alguém precisa limpar, né?’ E introduziram o trabalho e estas pessoas começaram a se oferecer para limpar, para consertar isso e aquilo.  Corrigindo, primeiro de tudo foram as refeições, depois a moradia e o trabalho.

Quando eles estavam instalados, comendo, trabalhado e tal, aí que eles perguntaram a eles quem é que tinha interesse em lidar com a questão das drogas. E funcionou, porque é de um respeito absoluto. E, veja, de onde partiu tudo isso? De uma pesquisa que se fez no Ministério da saúde, onde se percebeu que o usuário do crack não fica marginalizado para depois usar a droga. O movimento é o contrário, ele primeiro é marginalizado e só depois usa o crack.

A população pensa que é o contrário.

ImprenÇa: Eu fiquei muito interessado em saber o seguinte: quando o Haddad foi eleito eu tinha a impressão de que havia uma vontade maior da sociedade de ocupar os espaços públicos. Depois esse sentimento foi se perdendo e a impressão que eu tenho é que já não se pensa assim. Existe como, com política pública se incentivar a ocupação do espaço público? E se existe, isso é bom ou é ruim?

Ana: Em Brasília, por exemplo, aqueles prédios onde a área é sempre comum, porque não tem um quintal. Então a área de convívio é sempre coletiva. Então, veja, tá na concepção da construção da cidade, da construção das casas esse tipo de valoração: que tipo de cidadania eu quero incentivar? Um arquiteto tem que pensar isso, mas todos os profissionais precisam pensar: que tipo de cidadania eu quero incentivar?

E aí você tem aqueles que valorizam a identidade, a família enquanto algo reservado, fechado. E tem aquele que valoriza o coletivo. A família tem que estar ali, unida, tem que ter seu espaço, mas tem também que se abrir para o coletivo. Porque é no coletivo que as crianças vão conviver, vão aprender sua cidadania. Então acho que são programas, pensamentos distintos.

No debate ontem nós ouvimos isso [nota da redação: a entrevista foi gravada na sexta-feira 17 de agosto, um dia após o debate entre os candidatos ao governo do estado de São Paulo, promovido pela TV Band], você via claramente ali dois projetos: gente que respondia guiado pela ideia de um projeto coletivo e gente que respondia guiado pelo projeto individual.

Eu não estou criticando a família aqui, nos dois projetos ela é importante. Mas a família aberta para o coletivo é o mais correto. Então valorizar os espaços públicos, os parques, a rua como um lugar de passeio, um lugar onde o pedestre, o ciclista… as pessoas podem decidir o melhor jeito delas se movimentarem.

Quando se fala de ciclovia não é só uma questão de andar de bicicleta, é uma questão de que tipo de cidade a gente quer.

ImprenÇa: E agora a pergunta que não quer calar. Você disse que na escola é possível se discutir tudo, e a gente tem aquele vídeo do Marinho, seu candidato, dizendo que é contra a “ideologia de gênero”, que vetou a “ideologia de gênero” que não quer isso nas escolas. Ele mudou de ideia ou você que mudou?

Ana: Não. Bom, eu não sei exatamente toda a história daquele vídeo. Mas eu acho que o Luiz Marinho aprendeu. Eu acho que a experiência de ser prefeito de uma cidade como São Bernardo faz com que as pessoas sejam desafiadas nas suas crenças. A gente na universidade é desafiado todos os dias pela juventude. Eu acho que isso é a vida.

Quem é prefeito lida com a juventude, com as crianças, com os velhos. Eu penso, pelo que conheço do Marinho hoje, não sei no momento em que ele afirmou aquilo porque ainda não tive a oportunidade de conversar com ele sobre isso ainda, mas farei. Mas sei que hoje ele compreende. Ele hoje tem clareza que a expressão ‘ideologia de gênero’ é um nome pejorativo e nós não devemos ‘autorizar’ sua utilização.

Então, nós queremos ‘ideologia de gênero nas escolas’? Não. Nós queremos a discussão das relações de gênero na escola. Porque as relações de gênero são importantes. Hoje o movimento que as mulheres fizeram, fez a mulher alcançar um novo lugar na sociedade. A mulher também criou um novo homem. Então é importante que as nossas crianças acompanhem isso, não podemos fazer elas crescerem achando que mulher é aquela coisa do passado de 10, 15, 20 anos atrás. E a escola é o lugar onde a gente aprende esta cidadania. É o lugar onde a gente aprende todas as cidadanias. Então é claro que as relações de gênero, precisam ser tratadas na escola. Assim como as relações étnico-raciais. O país é de maioria negra e isso também precisa ser discutida na escola.

Então eu penso que o Luiz Marinho com certeza aprendeu neste tempo, aprendeu com o PT que tem uma posição clara sobre isso, sempre teve uma posição progressiva, afinal foi o PT que fez o “escola sem homofobia”, então eu tenho certeza que hoje ele pensa diferente, se é que ele pensou exatamente aquilo que a gente ouviu.

Confira também a entrevista que fizemos com: Maurício Costa, vice candidato da professora Lisete, do PSOL.

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