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Era 15 de abril de 1989, e na semi-final da Copa da Inglaterra se enfrentariam Liverpool e Nottingham Forest. O estádio para a peleja seria o de Hillsborough, em tese um dos que melhor comportaria esta decisão.

Para quem acompanha o futebol inglês hoje talvez não faça sentido que um jogo como este fosse importante. Mas à época o Nottingham tinha no início dos anos 1980 ganhado 2 edições seguidas de Liga dos Campeões e alguns campeonatos nacionais. Era, portanto, um senhor jogo.

O estádio na cidade de Sheffield, palco de uma das piores tragédias do futebol

O estádio na cidade de Sheffield, palco de uma das piores tragédias do futebol

O futebol inglês dos anos 90 estava tentando se reestruturar. Ainda não era a magnitude que têm hoje um dos maiores campeonatos do mundo, a Premiere League, iniciada em 1992. Os anos 90 eram marcados por um futebol fraco e estádios pouco preparados para receber grandes públicos. Ainda que o estádio em questão tivesse recebido uma certificação de segurança, ao final dos anos 70, a verdade é que ele não era assim tão seguro.



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Já em 1981, uma prévia do que estaria por acontecer. Em um jogo entre Wolverhampton e Totteham em outra semi-final, uma grande aglomeração de torcedores se formou, a polícia resolveu abrir um dos portões para torcedores entrarem no setor Oeste e 41 pessoas saíram feridas.

Seria um alerta se alguém estivesse interessado em resolver os problemas. Algumas poucas mudanças foram feitas e a certificação que o estádio recebera em 1978 não foi renovado.  Em 1987 a Copa da Inglaterra, campeonato mais antigo do mundo e, à época, o mais importante campeonato inglês – voltou ao estádio de Hillsborough. O jogo teve de ser adiado em 15 minutos por conta da grande aglomeração de torcedores na porta do estádio, mas a partida seguiu sem grandes incidentes.

Finalmente em 1989, a tragédia aconteceu. Pouco antes do início da partida houve um enorme acúmulo de pessoas na área das catracas para a Leppings Lane End – local onde seriam acomodados os torcedores do Liverpool e onde caberiam 14600 pessoas. Os torcedores que tinham sido impedidos de entrar não conseguiam deixar a área por causa da multidão atrás deles e não conseguiam entrar pela superlotação.

Com medo dos Hooligans (torcedores briguentos, para simplificar o entendimento), a polícia limitou as catracas de acesso aos torcedores do Liverpool, causando a aglomeração. Depois, com o acúmulo de 5 mil pessoas do lado de fora, a polícia abriu simplesmente os portões, causando não só a entrada de todos os 5 mil torcedores, como uma correria em direção ao campo, esmagando os torcedores que já estavam dentro do estádio.

O alambrado caiu (ou foi derrubado pelos próprios torcedores desesperados) com 5 minutos de jogo, as pessoas que estavam esmagadas na grade acabaram pisoteadas. Quase 700 pessoas foram feridas, 96 pessoas morreram.

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Margaret Thatcher

Durante muitos anos a versão oficial do que aconteceu foi escondida e alterada pelas autoridades policiais. Um ano após a tragédia o relatório oficial do governo foi resoluto: a culpa do acontecido era dos torcedores do Liverpool, conhecidos pela embriaguez e pela baderna.

O jornal The Sun, chegou a fazer uma capa culpando os torcedores.

Foram muitos anos de luta para que familiares e vítimas sobreviventes conseguissem descobrir e revelar a verdade ao mundo. Ao final, o próprio The Sun soltou uma outra capa:

O relatório final ficou conhecido como “Relatório Taylor” e além de culpar torcedores, fez uma série de recomendações que acabaram por mudar totalmente o futebol inglês. A Inglaterra abriu linhas de crédito para que os clubes pudessem reformar seus estádios, exigindo um novo padrão que acabou por inflacionar as contas dos clubes.

Muitos encontraram como saída para esta crise financeira a venda do seu patrimônio para grandes magnatas, como foi o caso de Chelsea, Manchester City entre outros.

Margareth Thatcher foi a Primeira-Ministra do Reino Unido de 1979 a 1990, ficou conhecida como “Dama de Ferro” e implementou uma série de mudanças na economia inglesa. É considerada por muitos, a mãe do neoliberalismo. Impôs uma série de privatizações e, apesar de um período de grande sucesso, acabou renunciando em 1990, sem popularidade.

Foi o governo dela quem mandou culpar os torcedores e a partir do relatório elaborado pelo governo dela é que muitas características do futebol inglês se consolidaram.

Se por um lado o relatório Taylor conseguiu tirar os Hooligans do futebol, por outro foi diretamente responsável por uma elitização e pela repressão aos torcedores mais pobres, que até hoje seguem majoritariamente fora dos estádios.

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