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Por Eric Nepomuceno*

Na segunda-feira passada, uma subsidiária do banco estatal Banco do Brasil abriu inscrições para produtores audiovisuais interessados em obter patrocínio. Em tempos de seca absoluta, a iniciativa foi recebida como sinal de alívio para o setor.

No entanto, esse alívio durou quase nada. É que, no mais puro estilo de censura ditatorial, a convocação incluiu, na ficha de inscrição dos possíveis candidatos, as seguintes perguntas: “O trabalho tem características religiosas ou políticas? O trabalho se refere a crimes, prostituição ou pedofilia? Cenas de nudez ou sexo explícito são exibidas?

O mesmo documento informa as partes interessadas de que obras “que incentivem o uso de bebidas alcoólicas, cigarros ou outras drogas”, “tenham caráter religioso ou sejam promovidas por entidade religiosa”, ou “que tenham caráter político-eleitoral-partidário” não serão beneficiadas. .



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A verdade é que não é uma extravagância isolada, uma iniciativa infeliz de algum funcionário querendo se exibir com seus chefes. Não, não: a medida reflete com precisão a concepção de um governo liderado por um ultra-direitista que não perde a oportunidade de reiterar não apenas seu desequilíbrio como sua maior ignorância olímpica. Bolsonaro e seus capangas têm a cultura, a educação e as artes como inimigos a serem destruídos a qualquer preço e o mais rápido possível.

Desde o retorno da democracia, em 1985, houve apenas um período – quando Fernando Collor de Mello assumiu a presidência, em 1990 – tentativas de destruir o cinema brasileiro em particular e as artes em geral. Foram tempos difíceis, mas o setor conseguiu se recuperar em pouco tempo.

Após o golpe institucional que destituiu a Presidenta Dilma Rousseff, o cleptomaníaco Michel Temer, entre seus primeiros passos, liquidou o Ministério da Cultura. Houve resistência em todo o país e o governo recuou.

Mas comparado ao que Bolsonaro pretende, Collor e Temer são exemplos de civilidade. Inimigo de qualquer tipo de pensamento, ele está determinado a impor sua vontade sem medir esforços ou admitir limites.

Existem muitos exemplos. A grande maioria das universidades nacionais tem recursos para sobreviver até o próximo mês. Bolsas de estudos de alto nível não têm como sobreviver em agosto. Não é que não haja sinal luminoso no horizonte: não há horizonte.

Alguma coisa faltou na batalha do mentecapto contra as artes e a cultura? Sim: havia a necessidade de restabelecer um falso moralista e uma censura verdadeiramente abjeta. Agora não há mais.

Bolsonaro, que atira bestialidades na velocidade de um xerife de filmes de caubóis, alertou: é necessário impor um filtro em defesa dos valores familiares.

Quais são esses valores? Aqueles que ele e seu clã alucinado decidem.

*Artigo publicado originalmente no Página|12

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